|
Vídeos
e áudios históricos - Introdução
Não podemos
negar que a evolução histórica da música e dança árabes
no Brasil é repleta de fatos e acontecimentos
profundamente marcantes. Sabemos que com o passar do
tempo, contudo, apenas uma pequena parte desses
registros - fotos, vídeos e áudios - foram
definitivamente preservados, chegando, assim, até nossos
dias.
Como já
elucidamos no Tributo a Fuad Haidamus - o pioneiro da
percussão árabe no Brasil -, devido à aparente
inexistência completa desses registros, muitos tomaram
para si o direito de divulgar históricos totalmente
inverídicos, falácias, levando todos a um conhecimento
equivocado sobre aqueles fatos e acontecimentos
ocorridos há mais de 50 anos.
A história
da música árabe no Brasil inicia-se com a sua
profissionalização e, assim, desde os tempos do Cantor
Romeu Féres, o primeiro e maior intéprete de músicas
árabes no Brasil, muitos fatos marcantes de suma
importância ficaram devidamente registrados não apenas
em fotos, como, também, em áudios e, principalmente, em
filmes, tanto profissionais quanto amadores.
Esta seção
especial tem como objetivo reunir e tornar público os
mais significativos vídeos e áudios aparentemente
perdidos no tempo, contribuindo assim para uma
conscientização mais precisa e verossímil da história
evolutiva da música e dança árabes neste País, o que
abrirá seguramente, creio eu, novos campos para
eventuais pesquisas e estudos sobre o tema.
O que
veremos a seguir são manuscritos, vídeos e áudios muito
mais que especiais. São verdadeiros documentos
históricos que confirmam a importância dos trabalhos de
Fuad Haidamus e a verdadeira evolução da música árabe
neste nosso país.
Vitor Abud Hiar
Os registros do espetáculo "Noite Oriental de 1953" e
sua importância histórica para a Música e Dança Árabes
no Brasil.
No ano de
1953, o Município de Jahu - importante cidade do
interior paulista - comemorou seu primeiro centenário de
fundação. Desta maneira, foram realizados na época
inúmeros eventos solenes, como desfiles, exposições,
inaugurações etc.
Diante desse
acontecimento histórico, a Comunidade Libanesa em Jahu
realizou uma grande festa a que se denominou" Noite
Oriental". O evento foi apresentado na noite do dia 24
de Outubro de 1953, no chamado Parque do Centenário,
onde, devido sua grande importância, tudo foi registrado
em filme de 37 mm.
As
apresentações realizadas naquela noite foram divididas
em duas partes especiais. Na primeira parte, Senhoritas
da Colônia Libanesa de Jaú apresentaram números de dança
tradicional libanesa ( "Mil e uma Noites" - Bailado,
Dabke e Rhumba Árabe). Ao término da primeira parte do
programa, apresentou-se o bailado "No Mercado Persa'.
A segunda
parte das apresentações ficou a cargo do eminente cantor
Romeu Féres, laureado duas vezes com o prêmio Roquete
Pinto em 1951 e 1952, como o maior intérprete da música
internacional. No evento, Féres apresentou o quadro "O
Árabe em torno do Mundo", de autoria de Damus Filho,
cantando em 4 línguas diferentes (árabe, espanhol,
italiano e português). "O Árabe em torno do mundo" versa
sobre a histórica dispersão dos árabes ao redor do
planeta na busca por novas oportunidades.
O espetáculo
"Noite Oriental" é seguramente o mais antigo e
importante registro em vídeo de uma festa realizada pela
Comunidade Libanesa no Estado de São Paulo, que é
reconhecidamente o berço da dança e música árabes no
Brasil. Curiosamente, assistindo ao vídeo de época,
podemos verificar que em 1953 havia uma realidade
totalmente distinta, diversificada, daquilo que se
creditou nos mais variados textos de internet e
workshops de danças árabes de nosso tempo.
A qualidade
da roupagem utilizada naquele tempo também impressiona,
retratando com fidelidade as vestimentas
tradicionalistas usadas nas danças típicas do baladi
libanês. A seriedade e magnitude com que apresentaram os
números artísticos, faz cair por terra definitivamente
todas as informações falaciosas disseminadas em ampla
escala, que colocam em dúvida a qualidade dos eventos
árabes realizados antes da década de 1980.
A Dança do
Ventre - Raqs El Sharky - também teve seu espaço no "Noite
Oriental de 1953", deixando bastante claro que sua
existência no Brasil recua-se a períodos ainda mais
remotos de nossa história. Nota-se que já naquele tempo
(começo da década dos anos 50) Senhoritas da Colônia
Libanesa de Jahu/SP praticavam os passos da Dança do
Ventre e outras danças típicas, apresentavam-se
cotidianamente nos eventos de grande importância.
Shahrazad, contudo, trouxe as técnicas modernas e as
divulgou amplamente profissionalizando - a, tornando-se,
assim, a legítima Pioneira dessa arte no Brasil.
Destaque, ainda, para a bailarina "Rosa do Oriente" do
Teatro Municipal de São Paulo, que apresentou números de
bailados - Flamenco Àrabe - ao lado de Romeu Féres.
Já com
relação à música árabe profissional no Brasil, o vídeo
tende a ratificar todas as informações contidas neste
site, principalmente com relação a Romeu Féres -
primeiro intérprete de músicas árabes no Brasil - e a
Wady Cury e Fuad Haidamus, na formação do primeiro
conjunto musical tipicamente árabe do Brasil (
"Tributo
a Fuad Calil Haidamus" - primeira parte ).
Arquivo
Histórico: Fuad Haidamus, o pioneiro da percussão árabe
no Brasil, em uma de suas últimas apresentações, com o
alaudista Ely Almaza (vídeo histórico).
O ano é
1986. Durante a "Semana Árabe" em Goiás, Fua Haidamus
fora convidado de honra para fazer uma de suas últimas
apresentações como percussionista. Apresentaram-se nesse
evento, além de Haidamus, Ely Almaza, Nabil Nagi e Atef
Issa com seu tradicional grupo folclórico Cedro do
Líbano. O show aconteceu no salão aberto de um
importante clube em Goiânia.
O vídeo
mostra o pioneiro Haidamus já em idade avançada (praticamente
70 anos) e com problemas de saúde. Contudo, mesmo diante
de todas as dificuldades, aceitou o convite, e fez uma
de suas útimas apresentações profissionais, mostrando
que ainda possuia ótima agilidade e força rítmica ao
lado do companheiro e amigo Ely Almaza.
A imagem é
um dos raros momentos em que aparecem os músicos no
palco. Sem dúvida, um momento para ficar gravado nos
anais da história da musica árabe no Brasil.
Gravada na
qualidade amadora, a mídia carece de boa sonoridade,
porém, não deixa de ser uma singela homenagem a Fuad e a
todos os músicos que, juntos com ele, se apresentaram
naquela noite especial.
Arquivo Fuad Haidamus: Fuad Haidamus, o "Conjunto Egito"
de Jorge Aidamus, e a música árabe contemporânea no
Brasil.
Após se
apresentarem na novela "O Astro" da Rede Globo de
Televisão ( Vide Tributo a Fuad Haidamus ), Fuad
Haidamus e seu irmão, Jorge Aidamus, decidiram seguir
seus caminhos de maneira independente.
Fuad
Haidamus continuou se apresentando ao lado de seus
tradicionais amigos de palco e a ministrar aulas de
percussão para Vitor Abud Hiar ( que fazia desde 1978 ).
Já seu irmão, contudo, partiu decidido a formar um novo
conjunto musical árabe, agora, longe das importantes
influênicas musicais de Haidamus.
Com o passar
dos anos, Jorge Aidamus se reúne com uma dupla de novos
músicos de talento ( Ahmed e Saied ), fundando, assim, o
"Conjunto Egito".
À direita,
podemos observar a fotocópia da capa de uma fita cassete
com a formação do "Conjunto Egito", escrita e
assinada pelo próprio Jorge Aidamus. As gravações,
feitas em áudio amador, foram encaminhadas a Fuad
Haidamus como um presente de seu irmão, como podemos
observar na dedicatória feita. O objetivo seria que
Haidamus apreciasse e avaliasse a qualidade musical do
novo conjunto criado pelo irmão, uma vez que havia entre
eles pessoas em formação musical.
|
Importante:
Fuad Haidamus sempre foi um grande
incentivador de Jorge Aidamus em todos os
aspectos, devido, claro, ao grande prestígio
musical que possuía desde a década dos anos
40. Aidamus, até 1979, sempre acompanhou seu
irmão (Fuad) nos mais importantes eventos
musicais ligados à Cultura Árabe, seja em
apresentações de rádio, gravações e shows ao
vivo |
A formação
profissional, conforme descreveu Jorge Aidamus era:
Alaúde - Jorge Aidamus (fundador), violino - Ahmed e
Derbakke - Saied.
Aidamus, contudo, sempre deu oportunidade para possíveis
novos talentos, ensinando e ajudando as pessoas em que
ele acreditava.
Ainda no
detalhe, podemos verificar as inscrições feitas por
Jorge Aidamus no corpo da fita, contendo o nome dele
como líder e dono do grupo, o nome de seu conjunto ("Conjunto
Egito") e a breve citação de um jovem rapaz que, a
convite cordial de Aidamus, participara cantando
amadoramente em alguns momentos da gravação.
Ainda no
detalhe, podemos verificar as inscrições feitas por
Jorge Aidamus no corpo da fita, contendo o nome dele
como líder e dono do grupo, o nome de seu conjunto ("Conjunto
Egito") e a breve citação de um jovem rapaz que, a
convite cordial de Aidamus, participara cantando
amadoramente em alguns momentos da gravação.
Assim,
idealizado por Jorge Aidamus, o "Conjunto Egito"
fora uma especial oportunidade no surgimento e formação
de uma nova era de músicos e cantores de nossa época.
Toda essa geração de artistas ganharia gradativamente
notoriedade a partir do ano de 1990. É evidente que, com
o passar do tempo, depois do "Conjunto Egito",
Jorge Aidamus fundou outros novos conjuntos musicais,
seja sozinho ou em parceria com seus até então formandos,
mas isso só ocorreu no final da década dos anos 80.
Fuad
Haidamus, como dissemos no início desse trabalho,
continuou se apresentando ao lado de seus amigos. Seus
ensinamentos e técnicas foram passados exclusivamente
para Vitor Abud Hiar desde 1978, que os os aperfeiçoou e
modernizou gradativamente. Seus estudos renderam
divulgação e continuidade dos trabalhos de Haidamus,
além da criação do maior sítio sobre percussão árabe em
língua portuguesa até então visto. O rítmo árabe
ganharia maior força no Brasil.
Os
manuscritos e áudios contidos neste trabalho,
pertencentes aos arquivos de Fuad Haidamus, formam uma
importante prova documental, autenticando a importância
deste e de seu irmão Jorge Aidamus, como figuras únicas
e mais que importantes no desenvolvimento histórico da
música árabe contemporânea neste país.
Fuad Haidamus e os registros históricos dos
alaudistas Willian Bunduki e Said Azar.
Falaramos, agora, dos especiais registros históricos do
alaudista Willian Bunduki e, também, do músico e
compositor Said Azar.
A imagem ao lado, na parte inferior, mostra a capa
original de uma antiga fita cassete referente a uma
gravação histórica de Willian Bunduki durante show
realizado ao vivo no restaurante Bier Maza na década dos
anos 70 ( fragmento desse áudio também pode ser ouvido
ao lado).
Abaixo,
na parte lateral da fita em horizontal, segue uma outra
anotação, agora feita pelo próprio Willian Bunduki,
sobre a legítima formação de seu conjunto musical.
Como podemos
verificar, observando a fotocópia da capa de fita
cassete histórica, o conjunto era formado originalmente
por: Willian Bunduki (Alaúde), o histórico pioneiro Fuad
Haidamus (Derbakke) e Kico (Daff e percussão geral).
Alex Bunduki e Emílio Bunduki também eram parte
integrante, na falta, claro, dos músicos titulares.
O alaudista
Willian Bunduki, por sua vez, tinha uma característica
musical bastante diferenciada frente a todos os demais
alaudistas de sua época. Trabalhava sempre com as
tonalidadesmais graves do alaúde. Era um músico
tipicamente de palco e dono de um talento considerável.
Vitor Abud Hiar o considera históricamente o barítono da
música árabe no Brasil.
Outra
importante registro é do notável alaudista sírio Said
Azar, que, por muitas vezes, trabalhou ao lado de Fuad
Haidamus. Na sequência dos áudios disponibilizados (em
breve!), podemos ouvir um trecho de taqsim solo
realizado por Azar durante show 'ao vivo" no início da
década dos anos 80.
Fuad Haidamus e Tanios Baaklini - Registros Históricos

Capa
de fita cassete demo que contém gravações
históricas realizadas por Fuad Haidamus e
Tanios Baaklini juntos. À esquerda,
incrições feitas de próprio punho por Fua
Haidamus e, à direita, a indicação ´"Musicas
Árabes", feita pelo poeta Tanios Baaklin |
Quem foi Tanios Baaklini ? Baaklini fora um importante
músico, cantor, compositor e o maior poeta árabe de
nossa história. Segundo informações da extinta gravadora Odeon, Tanios
Baaklini fora o responsável por todas as músicas
interpretadas por Romeu Féres (o pioneiro do canto árabe
no Brasilo) na obra discográfica "Tardes Orientais" na
década dos anos 50.
Dentre as canções escritas por esse eminente poeta,
podemos citar: "Sonho de Amor", "Dabke", "Bahrum", "Rosana",
"Minha Morena", "Minha Saudade", "Tempos Amargos", "Machal"
etc..
Abaixo, trancreveremos a letra da música "Dabki" de
Tanios Baaklini, interpretada por Romeu Féres no Lp "Tardes
Orientais":
|
A Alvorada está surgindo !... Os passarinhos
estão cantando !...
As águas também cantam as cantigas das
fontes !... E o sol está despertando a
natureza com seus fios dourados por detrás
das montanhas !...
Tudo é alegria !...
Vamos colher os cachos prateados das uvas
que se estenderem nos vinhedos !.. As
ondulações das vegetações, refazem a dança
dos aromas... Respiremos o aroma da brisa
perfumada!... Vamos ao nosso passeio... ao
caminho da felicidade!..
Dancemos o "dabke" dos campos, nestes
bosques divinais... nestas terras
fascinantes!!!"
(Tanius Baaklini) |
|