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Curiosidades culturais sobre a história da
música árabe no Brasil: A Discografia árabe brasileira e seus
músicos expoentes.
Introdução
É comum falar-se das grandes dificuldades de,
na década dos anos 70, possuir um LP de músicas árabes no
Brasil. Alguns poucos históricos relatam a compra de long
play's por importação e as fitas cassetes como a única fase
antes do disco compacto.
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1956 - Fuad
Haidamus canta na inauguração do Programa de seu Amigo
Chico Shabou, pelas ondas da Rádio Clube de Santo André. |
Bem, é evidente que há uma enorme lacuna
nesses relatos. Explanar sobre o pioneirismo da musica árabe
no Brasil bem como a história de sua discografia, não é uma
tarefa tão fácil assim. A perda de muito material fonográfico
e o surgimento de alguns anti-históricos, acabaram
contribuindo para que a memória musical árabe no Brasil
tornasse pouco retratada e, por consequência, dirimida
gradativamente. Não é incomum ouvirmos ou lermos milhares de
informações inverídicas sobre o tema, que acabaram se
disseminando gradativamente
pelo ato da reprodução contextual.
Pois bem, o que podemos já afirmar nestas
primeiras linhas é que a história da discografia árabe no
Brasil está diretamente relacionada com a história dos
pioneiros da música árabe neste país.
Pioneiro da percussão e excepcional músico,
Fuad Haidamus fora também um grande colecionador de obras
discográficas árabes. Em seu inestimável acervo particular, podemos encontrar obras discográficas
raríssimas e preciosas, comercializadas no Brasil ainda na
década dos anos 30, 40 e 50. Trata-se de um verdadeira cápsula do
tempo da música árabe no Brasil"
Sob a luz de sua importante coleção, vamos
simplesmente retornar no tempo, resgatando e conhecendo a
história dos primeiros discos árabes no Brasil, bem como o
nome daqueles que fizeram história e que hoje servem de
exemplo para todos nós músicos que, atualmente, seguimos a
frente o legado que nos foi historicamente confiado.
Para todos os amantes da música árabe, fica
aqui mais esse modesto, porém, importante, trabalho cultural
de pesquisa e resgate histórico.
Os discos de 78 Rpm (Odeon, Continental,
Baida Records) - Os primeiros discos árabes tocados no Brasil.
De acordo com a história da discografia
brasileira, em 1902 Fred Figner fora o primeiro a trazer e
produzir os primeiros discos com gravações mecânicas.
Posteriormente, por volta do ano de 1927, surgem as primeiras
gravações elétricas, juntamente com seus novos fabricandes:
Odeon, Victor, Columbia (Que posteriomente passou a se chamar
Continental), Brunswick e Parlophon.
Os primeiros discos árabes no Brasil
começaram a ser produzidos no final dos anos 40 e início dos
anos 50, pelas chamadas Fábricas Elétricas Odeon e
Continenal.
Um dos
primeiros discos árabes comercializados no Brasil,
produzido em cera pela Continental (Antiga Columbia) em
78 rpm (Final dos anos 40), com a canção Al-Mimas.
Ouça um pequeno trecho desta obra. |
Ressaltamos ainda que os discos desta
primeira parte, fizeram parte da época do primeiro programa
árabe radiofônico do Brasil, comandado por Chico
Shabou, grande amigo de Fuad Haidamus que, conforme
citamos em destaque no início deste trabalho, fez a abertura
inaugural em 1956.
Acreditamos que grande parte desses discos
possa ter sido presentes de Chico Shabou a Haidamus,
justamente por serem de extrema raridade, não apenas no
Brasil mas também no mundo árabe.
Produzidos em 78 rpm, esses discos - que
antecederam os LP's árabes - possuíam apenas duas músicas
gravadas, ou seja, uma música de cada lado.
Eram discos pesados e bastante frágeis,
podendo, assim, se quebrar com muitíssima facilidade.
Diferente dos conhecidos Long Plays em vinil, esses discos
de 78 rpm eram produzidos em cera, o que tornava sua
produção significativamente complexa.
Próximo à década dos anos 60, começaram a surgir no
Brasil uma infinidade de outras marcas além das então
conhecidas Odeon e Continental.
R elembrando as marcas internacionais que passaram a
produzir discos árabes em 78 rpm, que temos conhecimento,
destacamos a famosa "Baida Records - Beirouth, Cairo,
Berlin", que produziu inúmeros trabalhos de artistas
árabes internacionais entre os anos de 1930 a 1950, como,
por exemplo, do mestre alaudista Prof. Elia Baida.
Ressaltamos que a legendária "Baida Records" é
uma das marcas pioneiras na produção de discos musicais do
mundo artístico árabe.
Uma curiosidade que envolve os discos feitos em 78 rpm,
é a de que eles não possuíam data, ou seja, não há como
estabelecer com exata precisão o ano em que foram
produzidos.
Pela história da discografia evolutiva, os
primeiros discos produzidos em 78 rpm possuíam apenas uma
canção, ou seja, somente com a sua evolução é que se
tornou possível gravar duas músicas em seu corpo.
C om o surgimento e a popularização dos
Long-Plays (LP), justamente por serem mais resistentes do
que os antecessores discos de 78 rpm, novos trabalhos de
artistas internacionais da época começaram a surgir no
mercado árabe brasileiro.
Dj. Abbud N. era o único
autorizado na produção e distribuição dos discos que contíam
as marcas citadas abaixo:
Ariphone, Cairophon, Chawaphon,
Baidaphon, Duniaphon, Voice de Lebanon, Sountelphan, Dounya,
Uniart, Misrophon, Badrophon e Sonocairo.
A representação da Ariphone no Brasil tinha
sede na cidade de São Paulo, mais especificamente na
tradicionalíssima Rua 25 de março, considerada o maior
centro comercial árabe da América Latina.
Foram distribuidos pela Ariphone inúmeros
trabalhos internacionais de músicos e cantores árabes da
época.
Dentre as inúmeras produções em Lp´s que levaram o logo da
Ariphone e que compõem a coleção histórica de Fuad Haidamus,
podemos mencionar:
"Coleção das mais lindas canções do
compositor Farid Al Atrach
(Estojo com 5 Lp´s
históricos); Coleção das mais lindas canções do
compositor Mohamad Abdul Wahab ( Coleção histórica com 5
LP's); Canções interpretadas por Samira Toufic; As Festas
de Casamento na Nossa Terra ( Vários Artistas);
Alegria da Mocidade - Sabah, Moharam Fuad e Abdul Halim
Hafez; Canções do compositor Muhamed Abed El-Whab ( 6
LP's históricos); Clássico Om Kalsoum (Várias
Coleções); Nossas canções dançantes (com Mohamad
Khairi e Mahamad Abu Salmu); Contos e Melodias Orientais
( Com o violinista Abboud Abdolhal, Elia Baida, Sami
Saidaui, Kaled Albunassr, Maha Abdoloahhab e Marie Ataia ),
Faiza Ahmad, entre outros
Foram muitos, como vimos, os títulos que a
Ariphone lançou no Brasil, proporcionando, assim, à
comunidade árabe brasileira a possibilidade de ter em mãos
obras musicais dos mais conhecidos cantores e músicos árabes
daquele período, hoje considerados verdadeiros mitos da música
árabe clássica.
Falaremos, a seguir, dos primeiros discos
(LP's) de canções árabes gravados no Brasil, bem como de seus
principais músicos e cantores expoentes.
O pioneirismo
discográfico da música árabe no Brasil.
O primeiro LP gravado no Brasil, feito
especialmente para a colônia árabe Brasileira, fora de autoria
do cantor árabe Romeu Féres, produzido por
Indústrias Elétricas e Musicais Fábrica Odeon, tendo
como título "Jóias Árabes". Posteriormente, devido ao
grande sucessos desse primeiro trabalho, Féres lança um
segundo LP com o título "Tardes Orientais", contando,
inclusive, com a participação da Orquestra e Côro de Luiz
Arruda Paes.
"
Foi grande a procura, e enorme o sucesso alcançado pelo
magnífico "long play" JÓIAS ÁRABES, interpretado pelo cantor
internacional ROMEU FÉRES, que a FÁBRICA ODEON DO BRASIL
lançou para satisfazer os gostos orientais, em homenagem a
Coletividade Árabe radicada nesta querida e hospitaleira
Terra.
Foi o primeiro "long play" do gênero; pois selecionou
as mais delicadas canções e melodias orientais, admirado não
somente pelos apreciadores da música árabe, como também
pelos apreciadores da música internacional, graças à seu
ritmo suave e meigo e à sua feliz adaptação artística e
musical.
Atendendo à inúmeros pedidos, Fábrica ODEON, tem a
mais grata satisfação de confiar, novamente, ao famoso
cantor ROMEU FÉRES- seu artista exclusivo - a interpretação
do novo e maravilhoso "long play" TARDES ORIENTAIS, cuja
letra é de autoria do poeta TANIUS BAAKLINI.
Queremos dispensar as referências à esta nova e
segunda realização do mundo artístico oriental. A gravação
encontra-se em vossas mãos, e os cometários ficarão ao vosso
critério"
( Texto de apresentação da
Obra TARDES ORIENTAIS com ROMEU FÉRES, escrito pela ODEON )
 Detalhe: Texto orginal da "Fabrica Odeon do Brasil"
gravado na capa do LP "Tardes Orientais" de Romeu
Féres (anos 50). Segunda Obra histórica do primeiro
Cantor Árabe Profissional do Brasil e, também,
Pioneiro no lançamento do primeiro LP com típicas
canções árabes em homenagem a Comunidade Árabe no
Brasil.
Veja o verso deste LP histórico em tamanho ampliado |

Imagem
de Romeu Féres, Pioneiro do canto árabe no Brasil. |
Dentre
as belíssimas canções interpretadas na obra supracitada,
transcreveremos a letra da canção "Dabke", cuja autoria édo
eminente Poeta Tanius Baaklini.
"A alvorada está surgindo!... Os passarinhos estão
cantando!... As águas também cantam a cantiga das
fontes!... E o Sol está despertando a natureza com seus fios
dourados por de trás das montanhas!...
Tudo é alegria!...
Vamos colher os cachos prateados das uvas que se
estenderem nos vinhedos!... As ondulações das vegetações,
refazem a dança dos aromas... Respiremos o aroma da brisa
perfumada!... Vamos ao nosso passeio... ao caminho da
felicidade!...
Dancemos o "dabke" dos campos, nestes bosques
divinais... nestas terras fascinantes!!!" (Tanius Baaklini)
Romeu Féres, grande
amigo de Fuad Haidamus, é considerado historicamente
o primeiro cantor árabe profissional no Brasil a gravar
um LP para comercialização em homenagem a comunidade árabe
neste país.
Féres é também o
cantor árabe da mais bela voz de todos os tempos da
história da música árabe no Brasil.
Podemos dizer que o célebre audista Wadih
Cury teve, ao lado de Fuad Haidamus, o importante papel de
semear a música árabe em terrítório brasileiro.
Cury, músico puramente tradicionalista, ainda
na década dos anos 60, lança pela Continental o seu LP duplo
"Canções de Folclore árabe", onde relembra músicas
memoráveis como: Al-iadi, Allah-Maik, Abu-zulof e Gina wa
Gina.
Considerado o pioneiro da música árabe
melódica no Brasil, fora o músico que, juntamente com
Haidamus, acompanhava Shahrazad em suas apresentações no
período dos anos 70.
Na Década dos anos 80, o Alaudista e
Violinista Nabil Nagi passou a se destacar com grande
intensidade tanto no âmbito da comunidade árabe como em todo o
Brasil, dando aos seus shows um caráter sempre dinâmico e
vibrante.
Milhares de bailarinas que hoje conhecemos
como Professoras no Brasil, trabalharam com Fuad Haidamus e
Nabil Naji e outras tantas , nessa mesma época, foram
descobertas artisticamente.
Viajaram pelo Brasil, acompanhados em muitas
oportunidades pelo primeiro grupo de Danças Folclóricas
Libanesas deste país, o Cedro do Líbano, que falaremos mais
adiante.
Graças a sua jovialidade e dinamismo, Nagi
era o típico músico árabe moderno . Nesse período surgem
novos percussionistas árabes, todos orientados pelo estilo e
técnica de Fuad Haidamus.
De todos os trabalhos de Nabil Nagi, vamos
aqui mencionar a gravação pela Cabal, em Buenos
Aires, do LP "Las Mil e Una Noches en Shark". Ritmos
como o conhecido Maqsoun, Ciftetelli (Taksim Oud) e
Malfuf passaram a ganhar destaque especial.
Dentre as canções interpretadas por Nagi e
seu conjunto nesse trabalho, a título de amostragem, podemos
citar: Ia Habaibi Ia Gaibi (Farid al Atrach), Taksin al
Laud e Salat el Sen (Chef Zakaría Ahmad). Naji
também era um excelente compositor.
Da mesma forma como Nabil Nagi, destacou-se, também, o
Alaudista, Cantor e Compositor Sírio Said Azar,
importante precursor na difusão da música árabe melódica e
cantada no Brasil, que realizou inúmeras gravações
de shows ao vivo,Alguns de seus trabalhos foram comercializados no âmbito da Comunidade Árabe
Brasileira em fitas cassetes na décadas dos anos 80 e
90.

O Alaudista e Compositor Sírio Prof. Said Azar
(foto de 1980) - Um dos Precursores na difusão da Música Árabe
melódica e cantada no Brasil. |
Mestre no Taksim Oud ( improvisação
melódica no alaúde ) Said Azar, também precursor na difusão
da música árabe melódica e cantada, como já dissemos, é considerado
o maior alaudista árabe do Brasil na atualidade.
Atuou ao lado de muitos nomes importantes da música e dança
árabes no Brasil, como, por exemplo, o bailarino Atef
Issa, fundador e líder do histórico e legendário grupo
de danças folclóricas libanesas Cedro do Líbano,
pioneiro na divulgação das tradicionais danças libaneses
pelo Brasil, como, por exemplo, o Dabke.
O conjunto de músicos de Willian Bunduki
( formado por Willian Bunduki (alaúde), Fuad Haidamus (
tabla / percussão geral ) e Kico ou Alex Bunduki ( pandeiro
/ percussão base), realizaram, também, diversas gravações
musicais de suas
apresentações na tenda árabe Bier Maza, porém, tais
trabalhos, em áudio amador ou convencional, não foram postos a comercialização.
Assim, sejam tradicionais ou
modernistas, podemos seguramente afirmar que todos os
conjuntos árabes que surgiram posteriomente no Brasil
copiaram os moldes traçados pela primeira geração de músicos
árabes.
Para Vitor
Abud Hiar, é certo que os novos conjuntos musicais que atuam
no Brasil seguem ou procuram seguir diretamente ou
indiretamente o estilo apresentado por Nabil Nagi, isto,
claro, logo após a criação do Solo de Tabla por Fuad
Haidamus, ainda na década dos anos 70.
Os trabalhos discográficos dos anos 80
(pós-pioneiro).
Canções
Orientais com Jorge Fahed - 1979 |
Com o início dos anos 80, como já havíamos
destacado no histórico
Tributo a
Fuad Haidamus - Pioneiro e
Mestre da Percussão Árabe no Brasil, a música
árabe brasileira passou a ganhar mais e mais novos talentos.
Canções árabes II - Ali Murad. |
Buscamos os nomes daqueles que se destacaram no período a
que chamamos de pós-pioneiro,
do
qual citaremos em destaque especial o cantor Jorge Fahed,
com a obra "Canções Orientais".
Recordemos, ainda, do cantor, compositor e alaudista libanes Ali
Murad, que lançou pela gravadora Aurofone 2 Lp´s
(Canções árabes I e II), com músicas orientais
caracteristicamente típicas, todas de sua própria autoria.
Também nesse período, lançou ainda pela mesma gravadora
(Aurofone do Brasil), alguns compactos simples, versando
sobre solos de alaúde e canto de muezim, tipicamente
religioso, entoado no alto dos minaretes das mesquitas do
mundo islâmico.
Na década dos anos 90, com o surgimento das gravações
digitais, novos trabalhos passaram a surgir, agora, sob a forma
dos modernos e revolucionários Cd's.
Considerações Finais.
É uma grande satisfação podermos resgatar as
obras discográfias históricas dos grandes pioneiros que, ao
lado de Fuad Haidamus - pioneiro na percussão árabe -
trabalharam na implantação da cultura músical árabe neste
país.
Consideramos este um dos mais importantes
trabalhos já realizados neste site. Nesta época em que
vivemos, a Memória Histórica, Pioneira e Cultural da musica
árabe no Brasil preserva-se ainda mais, nessas magnifícas e
majestáticas Obras Discográficas.
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Importante:
Os arquivos em áudio contidos neste trabalho são de
propriedade deste site e studio AbuDrum, servindo apenas para rememorar a
história da música árabe no Brasil e
homenagear seus ilustres músicos pioneiros.
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Tudo sobre o sistema de afinação dos Derbakkes tradicionais.
Sistema de afinação dos Derbakkes modernos - Conjunto de
6 ou 8 parafusos embutidos na borda do instrumento. |
E is um dos
pontos mais desconhecidos e curiosos da percussão libanesa, e,
por que não, da percussão árabe em geral. Na percussão
ocidental, conhecemos de forma mais comum a afinação por
esticamento, ou seja, o couro é esticado através do
auxílio de parafusos embutidos na borda do tambor.
Quase todos os
instrumentos ocidentais utilizam esse sistema para serem
afinados, como: Bongô, Atabaque, Timba, Rebolo, Tamborim,
Surdo, Caixa etc...
Na
percussão oriental, mais
especificamente na
percussão libanesa, até meados dos anos 80, a única forma
utilizada para afinar o Derbakke era através do
ressecamento da membrana de couro. Contemporaneamente
surgem os Derbakkes em pele de nylon, apresentando um
sistema ocidentalizado de afinação (afinação por
esticamento).
Vamos conhecer
mais afundo o sistema de afinação tradicional da percussão
árabe, ou seja, o sistema de afinação por ressecamento da
membrana através do emprego de calor.
O
couro animal, tanto de peixe quanto o de cabra, absorve muita
umidade do ambiente. Acreditava-se que na época do inverno,
devido ao frio intenso, o couro sempre perdia a sua afinação.
Na verdade isso é um grande equívoco.
O
inverno é a estação que melhor mantêm os instrumentos feitos
em couro afinados, pois, neste período, o clima é sempre
extremamente seco e a absorção da umidade é mínima. Quanto
mais grossa for a pele utilizava, mais umidade ela tenderá a
absorver. Quando evaporamos a umidade do couro, o tornamos
mais rijo. Essa é uma pratica, pelo que certamente parece,
milenar.
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Visão interna de Derbakke em cerâmica com suporte de
lâmpada para afinação. Sistema modernizado do então
primitivo método utilizado (fogueiras ou brasas).
Técnica inserida no Brasil por Fuad Haidamus. |
Primitivamente,
quando queriam afinar um derterminado Derbakke, colocavam-no
próximo à fogueiras ou brasas para que o calor fizesse o
trabalho de evaporação da umidade do couro. A prática de usar
lâmpadas no interior do instrumento para afiná-lo já é algo
bastante inovador.
Não temos
certeza absoluta quem inventou essa técnica, porém, segundo o
pioneiro Fuad Haidamus, que foi o primeiro a usar essa técnica
no Brasil, o uso de lâmpadas foi desenvolvido por um antigo
grande mestre de percussão libanesa chamado Jamil.
Haidamus havia aprendido com esse seu mestre e,
posteriormente, teria passado a usar a mesma técnica no
Brasil.
Imediatamente,
fora copiado por todos os outros percussionistas que se
seguiram.
O suporte que
sustentaria a lâmpada no interior do instrumento foi
idealizado por Fuad Haidamus. Por orientação do próprio
Haidamus, confeccionamos um segundo modelo de suporte que,
praticamente, era uma perfeita réplica do usado por Haidamus
na década dos anos 70.
É bastante
curioso notar que a presença de uma lâmpada no interior do
instrumento não afetava sua sonoridade. O som passava
facilmente através suporte sem sofrer nenhuma alteração. O
suporte é formado por um conjunto de quatro engates de pressão
em metal especial que servem para fixar perfeitamente a
lâmpada no interior do instrumento. A luz, por sua vez, deve
ficar há alguns centímetros de distância da membrana de couro,
para evitar qualquer tipo de dano.
Uma vez
atingida a afinação, o percussionista precisava ficar atento e
sempre recorrer ao calor da lâmpada ante a qualquer percepção
de desafinamento. Se fosse em dias chuvosos, era necessário
manter a lâmpada acessa quase que o show inteiro .
Uma outra
grande inovação referente ao uso dessas lâmpadas, é que o
percussionsita podia afinar o instrumento sem ter de parar de
tocar. A lâmpada podia ser acionada mesmo estando o
instrumento em uso. Havia a possibilidade da lâmpada queimar
com os impactos e a pressão sonora interna, mas era algo muito
raro de se acontecer.
Derbakke histórico de Fuad Haidamus em cerâmica
marajoara, sendo afinado através do emprego de lâmpada |
E
com relação ao Daff tradicional, tanto em pele de peixe como
em cabrito, há o uso de lâmpadas também ? Não, a lâmpada de
aquecimento é usada apenas no Derbakke porque este precisa
obrigatoriamente estar sob uma afinação alta (instrumento de
repique ). O Daff pode permanecer na sua afinação natural.
Caso esse instrumento esteja com afinação prejudicada, devemos
utilizar um "pad" para aquecimento.
O uso de lâmpadas ainda é uma pratica comum e atual quando
falamos em afinação dos Derbakkes tradicionais, porém, com
o surgimento de sua versão modernizada ou contemporânea,
acabou sendo posta na reserva ( em shows )e não abolida.
Lâmpada Spot: Ideal para serem utilizadas na afinação
dos Derbakkes tradicionais. Modelo típico usado por Fuad
Haidamus em seus shows. |
Q uais
seriam os problemas mais comuns enfrentados pelos músicos na
afinação com uso de lâmpadas ? Bem, há uma série de fatos
prejudiciais sendo que alguns até podem ser superados, vejamos
então:
1 - Ressecamento do couro prematuramente: É muito
importante que a lâmpada utilizada não seja muito potente. O
couro também precisa ser novo e bem cuidado para conseguir
manter-se rígido por mais tempo. Couros antigos ou velhos
respondem infelizmente muito mal ao emprego de calor. É
evidente que o uso constante de lâmpadas para afinação é muito
prejudicial ao couro, sendo que para evitar seu ressecamente
muito cedo, é imprescindível o uso de creme hidratante comum
regularmente.
2 - Aquecimento do corpo do instrumento:
Uma lâmpada comum
colocada no interior do Derbakke não apenas aquece a membrana
de couro, mas, também, a parte superior de seu corpo. Fuad
Haidamus utilizada em seus shows lâmpadas direcionais (
lâmpada spot ). A intenção era evitar que o corpo do
instrumento aquecesse de forma demasiada. Apesar do uso da
lâmpada spot não impedir eficazmente o aquecimento do corpo do
instrumento, já ajudava muito tornando-se a melhor opção para
se utilizar.
IMPORTANTE: Jamais utilize lâmpadas para afinar derbakke em
pele de nylon. O calor produzido causará terríveis danos à
membrana sintética.
É possível confeccionar nosso próprio
derbakke artesanalmente ?
O derbakke tradicional é um instrumento que
apresenta estrutura bastante simplória. Basicamente, é formado
por um corpo em cerâmica queimada com revestimento em couro
animal. Sei que diante de tal simplicidade estrutural, a
vontade que nos dá é a de confeccionarmos um. Bem, será
realmente possível confeccionar nosso próprio derbakke ? Este
texto visa tentar solucionar, talvez em definitivo, todas as
dúvidas referentes a tal questão.
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Derbakke de Fuad Haidamus |
O pioneiro Fuad Haidamus foi o maior produtor
de derbakkes que o Brasil já teve. Seus trabalhos vigoraram
amplamente durante toda a década dos anos 70 e um pouco menos
da metade dos anos 80. Após esse período, com o surgimentos
da versão moderna em alumínio e pele sintética, Haidamus
passou a fabricar seus instrumentos em quantidade menor, até
que na década dos anos 90 a produção estava praticamente
extinta.
A possibilidade de um leigo confeccionar seu
próprio derbakke é viável, mas, apesar de ser um instrumento
simples, subestimar sua produção já nos parece ser o primeiro
grave erro cometido.
A confecção de um derbakke deve estar
obrigatoriamente em consonância com vários elementos de suma
importância que, se não observados de forma minuciosa e
precisa, poderá levar todo nosso trabalho a um desastre total.
Vejamos com mais detalhes cada um desses elementos essenciais.
a - A cerâmica utilizada
Existem diversas espécies de cerâmica no
Brasil, porém, não são todos os tipos que podem ser
utilizados. A cerâmica precisa possuir uma vibração específica
para que o som do instrumento, quando devidamente afinado,
possa apresentar o timbre correto. Segundo Fuad Haidamus, o
único lugar no Brasil que produz cerâmicas adequadas para tal
feito é o Estado do Pará. Os derbakkes de Haidamus possuíam
corpo em cerâmica especial do Pará (cerâmica marajoara), com
alta durabilidade, leveza e qualidade.
b - As dimensões e os contornos
Eis um outro grande desafio. É preciso
ressaltar que as medidas de um derbakke em cerâmica são
diferentes das medias de sua versão moderna ( alumínio). Não é
possível usar este como modelo para a confecção daquele,
infelizmente. As medidas precisam ser rigorosamente precisas
para que não ocorra nenhuma distorção sonora. Um derbakke
original fabricado por Fuad Haidamus possuía, no máximo, 40 cm
de comprimento, e pesava 2 kg.
Da mesma forma ocorre com os contornos do
instrumento que devem ser precisos e bem feitos. A grande
maioria dos ceramistas brasileiros, estão acostumados com
técnicas para confecção de vasos, moringas, pratos etc.., e
não de um instrumento musical.
c - O couro adequado
Fuad Haidamus foi um grande pesquisador
nessa área. O couro era devidamente cortado em discos dentro
de um raio padrão; eram feitos furos em suas bordas e,
posteriormente, trançava-se os fios de amarração. Havia toda
uma técnica própria para a realização dessas tarefas.
O couro era de cabrito ou bode, oriundo da
região nordeste do Brasil. Esse couro é bastante utilizado na
confecção de instrumentos típicos baianos.
d - Outros materiais
Não devemos fugir dos materiais
tradicionais usados na confecção de um derbakke. Haidamus
possuía derbakke em fibra de vidro, porém, considerava seu som
de baixa qualidade para ser usado em gravações ou shows.
No nosso entender, comprar um derbakke é a
melhor opção. O derbakke é um instrumento que possui som
característico e inconfundível. Qualquer erro ou descuido
poderá comprometer seriamente todo o trabalho realizado.
Apesar da confecção ser viável, não vale a pena arriscar.
"O" Derbakke ou "A" Derbakke ?.
No
Brasil, reconhecemos o nome Derbakke como masculino. Fuad
Haidamus, sempre se referia a esse instrumento empregando o
artigo "a" ( a Derbakke, na Derbakke ). Pelo que parece,
Derbakke é um nome feminino e não masculino, seguindo assim a
mesma linha de sua nomenclatura como: "A" Darbuka
(feminino); "A" Darabouka; "A" Darbouka (feminino); " A"
Durbaki (feminino); "A" Dohollah (Tabla Grave - feminino );
etc...
No
caso do nome Dumbek, fica bem claro de que se trata de um nome
masculino devido a junção das expressões "DUM" batida grave e
BEK batida aguda - O Dumbek.
Existe uma história bastante curiosa sobre a origem da
masculinização do nome Derbakke no Brasil, vejamos:
Quando Fuad Haidamus iniciou a produção das primeiras
derbakkes ( totalmente desconhecidas no Brasil até então ) e
fornecer para algumas lojas de instrumentos musicais em São
Paulo, os comerciantes brasileiros, que na época pouco sabiam
sobre tal instrumento, fizeram uma ligação analógica entre os
nomes Derbakke e Atabaque ( nome este que faz parte de nosso
vocabulário ( Atabaque = Tambor pequeno de uma só pele )).
Como " Atabaque" é um nome masculino e, por ventura,
um instrumento de percussão bastante conhecido no Brasil
através de sua ampla utilização nas rodas de capoeira e de
samba, passaram a chamar analogicamente a Derbakke de " O
Derbaque ", gerando assim a problemática do nome
masculinizado.
Com o surgimento da escrita árabe em caracteres ocidentais,
passou-se a grafar tal nome da maneira que mais se aproximasse
da palavra pronunciada em árabe (PRINCÍPIO DA EQUIVALÊNCIA
FONÉTICA), quebrando assim essa analógica relação com a
palavra ATABAQUE, assim temos:
A DERBACK, A DERBAKE,
A DERBAKKE, A DERBAK
"Haidamus tocava a derbakke com
estrema rapidez"
Das formas acima, acreditamos que "Derbakke" é a que
mais se aproxima da pronúncia; os dois "kás" juntos
fortalecem o som da a consoante antes da vogal "e" ao final,
distanciando-se assim de Derbaque. É uma questão de
opinião.
Nos dias atuais, sabemos que não existe nenhuma ligação entre
os nomes Atabaque e Derbakke apesar de "atabaque" ter
sua origem do árabe: at-+abaq como bem nos explica Aurélio
Buarque de Holanda.
O
fato é que o nome derbakke, graças aparentemente sua
pronúncia similar com atabaque, acabou sendo reconhecido e
difundido no Brasil como um nome masculino " O Derbaque "
e não da maneira como era conhecido pelos pioneiros da música
árabe no Brasil - A Derbakke, assim como suas outras
denominações - A Darbouka e A Darbukka, todas no
feminino.
De certo, tanto
faz usarmos "O Derbakke" (com o artigo definido "o" fruto da
analogia com o nome Atabaque), como "A Derbakke" (seguindo a
mesma linha de sua nomenclatura tradicional assemelhada).
Cremos que o importante é sempre buscar equivaler tal nome à
pronúncia fonética da língua árabe, ou seja, Derback, Derbake,
Derbakke, Derbak etc.. e não Derbaque, que, certamente,
se distancia razoavelmente da sua pronúncia original.
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