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"Confira alguns interessantes artigos relacionados
à Percussão Libanesa e início da Música Árabe no Brasil" |
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Breve resumo sobre Música Árabe Clássica no
Brasil, a "baladi", a importância da interpretação e suas
maiores Estrelas do Mundo Árabe.
Histórico LP da "Voice of
Lebanon" com o título "Festival Folclórico Libanês";
canções tradicionais interpretadas pelos lendários Wadih
Al-Safi e Sabah Fakri, grandes mestres intérpretes da
música árabe clássica. Fabricado por som Indústria e
Comércio - Rio de Janeiro - Final da Década dos anos 60
( Editora Sayad ). |
Clássico é tudo
aquilo que teve seu valor posto à prova do tempo e, por ser da
mais alta qualidade, se perpetuou. Na música árabe, clássico
é e sempre será nossa maior escola, ou seja, nosso maior
referencial.
É praticamente impossível compreendermos a
música árabe sem, antes, conhecermos mais de perto sua
essência clássica, isso desde os tempos mais primórdios. Se as
primeiras mídias de música árabe tivessem realmente surgido
no Brasil há 10 ou 20 anos atrás, teríamos, certamente, uma
monumental deficiência principalmente no que se refere ao
entendimento do "clássico interpretativo".
E certo que ficaríamos confinados praticamente
à referências do nosso tempo, o que certamente seria algo
bastante prejudicial; não teríamos base
suficiente para um lapidado aprimoramento de nossa cultura
musical.
Ao contrário do que se tinha conhecimento até
então, a intronização, o conhecimento e o estudo da música
árabe clássica neste País não é algo tão recente assim.
Verificando a acervo histórico de discos da Família Haidamus,
seguramente um dos mais completos deste País, é possível
encontrar verdadeiras raridades, com gravações lendárias e
extraordinárias dos maiores compositores e mestres da
interpretação clássica. O acervo conta com obras
comercializadas no Brasil entre as décadas de 30,40,50,60,70 e
80.
Infelizmente, o puro clássico da música árabe
está se tornando algo muito raro nas mídias atuais. Contudo,
ainda é possível encontrarmos com um pouco de facilidade
algumas antigas gravações originais de Abdel Halim Hafez, Um
Kulthum e Farid Al Atrache.
Clássicos orquestrados como as canções
tradicionais Bagdad, Cairo, Rasan, Nahid, Lybia, Tounis,
Nagwa,Souhair, Jordania, Bairouth, Damasco, e Hazih Leilati,
já se tornaram seguramente grandes relíquias do mais alto
valor histórico. Essas canções ainda podem ser ouvidas nas
mais diversas rádios clássicas internacionais do mundo árabe .
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LP de Um Kulthum da Sono
Cairo lançado no Brasil entre os anos de 1969 - 1970. |
Ressaltamos que dentre os nomes artísticos que
citaremos aqui, muitos deles já não mais são encontrados para
realização de pesquisa. Tratam de músicos e cantores que
atuaram entre as décadas de 1930 a 1950, lapso de tempo que
esta pesquisa irá abranger. Aos interessados em aprofundar um
pouco mais seus conhecimentos, trazemos de volta através de um
breve resumo parte do puro clássico da música árabe, gravado
na memória histórica e cultural da Comunidade Árabe no Brasil.
A Cantora
Egípcia Um Kulthum - Trabalho de Edward Arida (1970) |
Seria correto afirmarmos que clássico é o
mesmo que baladi ? Bem, é notório que os grandes compositores
da música árabe clássica ou tradicional sempre buscaram no
tradidicionalismo regional elementos, dados, subsídios
fundamentais à criação de suas canções.
Pois bem, se analisarmos mais de perto o
significado que abrange a expressão "baladi", isso, claro, no
âmbito da cultura libanesa, vamos notar que há consubstaciado
no termo três elementos que juntos ou separadamente,
demonstram claramente seu significado, vejamos:
Os compositores da música árabe clássica
sempre buscaram abranger e exaltar em quase todas as suas
obras, pelo menos um desses três elementos que compõem o
sentimento da baladi:
Nossa Aldeia =
é o orgulho
de nossa terra natal, dos costumes tradicionais existentes
alí, dos amores que lá tivemos e
deixamos, o desejo de um dia lá retornarmos etc..
Histórico Lp do Lendário
Cantor, Compositor e Aludista Farid El Atrache lançado
no Brasil já no início da década dos anos 60, pela
Cairophon. Atrache é considerado um dos maiores gênios
da interpretação musical árabe de todos os tempos. |
Nossa Glória =
é o orgulho por nossas vitórias no
campo de batalha, nossas conquistas bélicas.
Nossa
Independência =
é o orgulho de
nossa soberania; é o orgulho da liberdade, do respeito e do
reconhecimento que conquistamos perante outros povos, outras
etnias em todo o mundo.
Na
música árabe moderna, por sua vez, diferentemente da música
clássica, há de forma muito clara a influência do movimento
"pop" (música originalmente anglo-norte-americano), que nada
mais é do que a modernização dos elementos folclóricos, como
no blues, no rock e na música country. O "pop" reflete
nitidamente o gosto popular típico da cultura urbana ocidental
do século XX.
É por essa razão
que, como já dissemos no início deste trabalho, utilizar
somente referências do nosso tempo para estudo da música árabe
clássica é algo insatisfatório e, muitas vezes, prejudicial. O
"pop", presente na habitualidade interpretativa de muitos
músicos contemporâneos (modernização, como dissemos, dos
elementos folclóricos), acaba sempre sendo "respingado" até
mesmo na interpretação de composições clássicas, seja em maior
ou menor grau de intensidade.
Pois bem, quando assistimos
às apresentações de Um Kulthum, célebre cantora egípcia,
podemos claramente notar que sempre se apresentava com
vestimentas de grande luxuosidade. Muitos me perguntam se
estaria ela, de alguma forma, se distanciando da simplicidade
que abarca o
tradicionalismo regional árabe.
Bem, ocorre que Um
Kulthum potencializou ao máximo o grau interpretativo; sua voz
conseguia facilmente atingir os corações de todos que a ouviam
cantar, gerando, dessa forma, uma verdadeira ponte entre o
passado e o presente sentimental.
Não era raro, nas
milhares de apresentações que fez, se ver "obrigada" a repetir
várias vezes a mesma canção com a mesma ênfase, atendendo
sempre o clamor de uma platéia maravilhada e emocionada. Isso,
como pode ser facilmente notado em milhares de vídeos
históricos das maiores cantoras árabes que se seguiram, acabou
se tornando uma verdadeira tradição, graças a Um Kulthum.
Conhecida como a voz mais bela do Cairo, Um Kulthum nasceu em
1904 numa pequena aldeia do sul do Egito. Criou um gênero
próprio e novo de cantar que, posteriormente, passou a
inspirar a grande maiorias das cantoras que se seguiram.
Gravou ao vivo inúmeros trabalhos tanto em discos de 78 rpm
como em LPs. No Brasil, várias coleções suas foram lançadas
pela Ariphone até o início dos anos 80. Morreu em 1975.
O Violinista Abboud
Abdolhal, compositor da música "Racsat Alhauriat" |
Um outro importante nome da música árabe,
porém menos conhecido, fora o do célebre compositor e
violinista Abboud Abdolhal. Historicamente, creditam que ele
tenha imortalizado o solo do Violino (Kamanja Taksim) nas
canções árabes. Grande mestre na interpretação instrumental,
transmitia através de seu instrumento acústico um
sentimentalismo realmente excepcional.
Dentre os trabalhos discográficos de Abdolhal
lançados no Brasil pela Ariphone - tradicional neste País já
na década dos anos 50 - podemos citar o LP "Contos e Melodias
Orientais", que apresenta a música "Racsat Alhauriat" cuja
autoria é também de Abdolhal.
Em toda orquestra árabe, o alaúde é, sem
sombra de dúvidas, um instrumento imprescindível. Pai do
Violão e avô da Guitarra, como bem nos ensina Prof. Said Azar,
é, depois da voz humana, o instrumento da mais bela
sonoridade. O alaúde personifica o princípio máximo da
interpretação na esfera musical árabe.
Prof. Elia Baida pode ser seguramente considerado um dos mais
antigos e célebres cantores e alaudistas da música
Prof. Elia Baida |
árabe clássica. Fora um dos mais talentosos mestres na
interpretação de todos os tempos, tendo como característica
marcante a busca constante ao baladi puro e sentimentalista.
Deixou repertório de várias músicas tradicionais, todas em
discos de 78 rpm. Gravou pela Baida Records e Araphon.
Dentre as milhares de músicas interpretadas por Elia Baida,
podemos citar "Kanly Ghazal","Belghadr","Men Iaum Fergak" e
"Ianas Mali", gravadas pela famosa Baida Records que, já na
década dos anos 50, era considerada uma marca de grande
tradição. Na atualidade, suas gravações realizadas são
verdadeiras preciosidades da música árabe clássica ( ouça
um pequeno trecho da canção "Belghadr", interpretada pelo
Prof. Elia Baida)
Outros importantes mestres alaudistas que se
seguiram foram os célebres Profs. Mohamed Abd-el-Wahab e Farid
el-Atrache (citado anteriomente). Ouvir suas obras é algo de
fundamental importância para todos que desejarem entender a
música árabe na sua mais pura essência interpretativa e
sentimentalista.
Nascido em 1929, Abdel Halim Hafez é
considerado um dos maiores gênios compositores de todos os
tempos, além de ser seguramente um dos artistas mais
conhecidos e citados em todo o mundo. Fazia questão de reger
sua própria orquestra durante as apresentações. Dentre suas
mais belas obras clássicas, citaremos aqui a canção Sawad que,
com uma nova roupagem interpretativa, passou a ser uma das
canções mais apresentadas em shows de Dança do Ventre em todo
o mundo.
A Cantora Asmahan |
Falaremos rapidamente de uma das mais belas
vozes do Líbano: A cantora Asmahan.
Irmã do Grande Alaudista e Compositor Farid
Al-Atrache, Amal Al- Atrache (nome de batismo de Asmahan (não
podemos confundir com a Bailarina Asmahan) ) nasceu em 1918 e
morou no Líbano até 1920 respectivamente.
14 anos mais nova que Um Kulthum, tinha uma
voz tão esplendorosa e magnífica quanto essa. Muitos afirmam
que, se Um Kulthum elevou o canto clássico árabe à beira da
perfeição, a interpretação de Ashman eriqueceu a música árabe
abrindo uma janela à música do Mundo Ocidental, sem, contudo,
descaracterizar as notórias diferenças fundamentais existentes
entre esses dois tipos de música.
Asmaham morreu tragicamente em um acidente de
carro durante a 2ª Guerra Mundial, empreendida entre os
serviços secretos no Cairo.
No Brasil, foram lançados já em LPs alguns
trabalhos de Asmahan pela gravadora Ariphone. Várias música
célebres chegaram até nos como: Asquiniha Biabi, Nauet Adari,
Laita Lilbarak, Ia Habibi Taala, Farak Ma Bena e Ia Tiur.
Fica evidente que a Música Árabe Clássica
existiu, influenciou e sempre esteve presente no âmbito da
Comunidade Árabe
O tradicionalíssimo cantor Samir
Yazbek |
Brasileira desde os tempos mais remotos. Não
é, como muitos pregam, algo que há pouco tempo estava distante
de nossa realidade e entendimento.
Para
Vitor Abud Hiar, "a cultura músical árabe no Brasil jamais foi
algo de novo, de agora".
Este trabalho cultural mostra-nos através de
um brevíssimo resumo, parte dessa Memória Musical e e em que
grau fora realmente plantada neste País.
Muitos trabalharam para que esse fato pudesse
acontecer, e a todas essas pessoas ficará aqui nossa singela
homenagem.
Terminaremos com uma citação feita por um
antigo e conhecido professor alaudista: " Estudar
música árabe clássica é viajar pela arte da interpretação
musical na sua mais pura e genuína essência".

As filosofias
na Percussão árabe ( As doutrinas das grandes escolas de
percussão).
Detalhe de Ruínas Romanas em Baalbek -
Libano. Gravura de Edward Arida - Brasil 1970. |
Certa vez, estava conversando com um
derbakkista não brasileiro, e ele me dizia sobre seus
trabalhos e estudos na percussão árabe. Por curiosidade,
perguntei a ele qual era a filosofia que regia seus estudos de
percussão. Prontamente, me respondeu que sua filosofia era a
melhor possível.
Me disse que era uma pessoa esforçada e que
estudava percussão todos os dias. Essa era sua filosofia. Bem,
creio que esse músico não tenha entendido bem minha indagação.
Estava me referindo às filosofias doutrinárias de
interpretação e técnica rítmicas, ensinada nas escolas árabes
de percussão, sendo a CLÁSSICA EGÍPCIA e a SÍRIO-LIBANESA as
principais delas.
Há diferenças entre essas duas escolas ? Elas
são importantes ? Bem, há diferenças teóricas entre essas
duas escolas, principalmente no que se refere ao melhor uso
das técnicas de percussão e suas respectivas interpretações no
trabalho das nuanças sonoras. Outra importante diferença se dá
quanto à nomenclatura dada aos instrumentos percussivos.
Consubstancia-se , também, na
linha de raciocínio que um professor deve seguir para ensinar
seus alunos. Toda a aula será desenvolvida tendo como base a
doutrina adotada.
É claro que tudo isso se trata
de uma questão complexa pois, por serem escolas irmãs, ou
seja, nascidas de uma mesma fonte originária, também
apresentam claramente filosofias "semelhantes". O importante é
termos em mente de que não se trata de uma coisa só.
O princípio de que as peles naturais produzem
melhor qualidade sonora vem da tradicionalidade egípcia. No
Líbano, a tendência de se estabelecer um certo modernismo à
percussão é bastante acentuada - uso de peles artificiais em
todos os instrumentos - mas ressaltamos que ainda há aqueles
que preferem manter-se na tradicionalidade original.
Entre essas duas grandes escolas irmãs,
prefiro particularmente a Clássica Egípcia justamente por
estar envolvida por uma redoma de complexidade e
tradicionalidade. A escola clássica ou tradicional, trabalha
com elementos que exigem mais do músico, principalmente no que
se refere ao uso do sentimentalismo interpretativo (opinião
particular). Nenhum músico pode desenvolver sua técnica sem
antes optar por quais doutrinas seguir.
Quando ensinamos, devemos também seguir os
princípios teóricos de uma dessas duas importantes escolas.
Isso é importante porque daremos ao aluno base suficiente para
seguir por si só seus estudos, podendo, inclusive, se corrigir
nos casos mais comuns e, por que não, nos de média
complexidade. Quando isso não acontece, o aluno irá prosseguir
persistindo nos erros, pois não possui uma boa filosofia de
percepção rítmica. Ele não conseguirá enxergar suas falhas e,
por conseqüência, deixará passar batido.
A sensibilidade auditiva também é um dos
pontos chaves que devemos saber trabalhar. Se não temos ainda
essa sensibilidade, ficará muito difícil saber com precisão se
um ritmo está soando bem ou mal. Saber ensinar como
desenvolver essa sensibilidade também é importante.
As filosofias das escolas árabes nos remete a
um trabalho paralelo à alma de "baladi". Nos ensina a ouvir e
interpretar os ritmos com o coração, ou seja, com a alma
despida de qualquer formalidade.

O Mazhar libanês e o Mazhar egípcio (versões).
Mazhar Egípcio |
Seria correto afirmarmos que o Mazhar "sempre"
possui címbalos ? Bem, sabemos que a percussão árabe se
desenvolveu muito nos últimos tempos. O Egito, por sua vez,
sempre foi a maior referência em termos de percussão no mundo
árabe.
É muito comum vermos percussionistas libaneses
preferirem instrumentos confeccionados no Egito. Pesa o
respeito pela tradição e pela técnica milenar na prática dessa
confecção.
Pois bem, com o surgimento das versões
modernizadas dos instrumentos de percussão árabe, certamente
elogiadas por uns e criticadas por outros, muita coisa nova
começou a surgir.
A versão tradicional do Mazhar é confeccionada
no Egito. Trata-se de um pandeiro de diâmetro grande, contendo
um jogo de 5 platinelas grandes duplas. É tradicionalmente
feito com membrana de cabra, que é colada na borda de seu aro.
No caso da versão moderna do Mazhar Libanes, quando falamos em
mais "utilizável", estamos nos referindo à sua praticidade
dentro da percussão.
Por ter uma membrana removível, podemos
utilizar nesse instrumento peles sofisticadas (naturais ou
artificiais), que possam responder melhor a todo tipo de
afinação. Ideais para gravações ou shows. Como não possui
címbalos, podem ser tocados de três formas distintas: entre as
pernas, sobre uma das pernas ou da forma tradicional, que é
segurando o instrumento como um Daff (libanês) ou Riqq.
Aqui vai uma informação realmente importante:
Um músico egípcio pode facilmente reconhecer o Mazhar libanês
como um Daff ou Bendir que, dependendo de sua circunferência,
também pode ser tocado entre as pernas do percussionista.
O Mazhar egípcio não é muito visto na
percussão libanesa moderna, mas ainda é utilizado quando
falamos em tradicionalidade. Até mesmo na percussão
egípcia,muitos acreditam que sua utilização ficou dirimida
(Curiosamente, para a execução do Ayubb (ritmo do camelo),
costuma-se utilizar o Mazhar com címbalos) .
Os instrumentos mais utilizados modernamente
em shows são o Derbakke (repique), O Daff (ostentação e força
rítmica) a Dohola (base) e o Bendir ou Mazhar Libanês (base).
Em opinião particular, acreditávamos que o
Mazhar de címbalos teria sua utilização restrita na percussão
árabe, porém com o advento de sua versão comtemporânea,
sua utilização acabou, de certa forma, ganhando
destaque novamente.

O autoditada na percussão árabe.
Autodidata é todo aquele que aprende algo por
si, sem o auxílio de um professor. Na música existem vários
autoditadas, ou seja, músicos que aprendem a tocar instrumento
musical por si só, sem ter auxílio de alguém mais experiente.
No âmbito da percussão árabe, a situação não podia ser
diferente.
É certo que por mais aptidão que alguém possa
ter para tocar determinado instrumento (derbakke), sempre há
alguns pontos importantes que, se não forem observados
corretamente, poderão levar o autoditada a um prejuízo sem
precedentes.
Em primeiro lugar, o estudante autoditada deve
estar atendo aos vícios de percussão, ou seja, não fazer o
"Dum"(batida grave) com o polegar ou com a mão errada, apoiar
o instrumento sobre as duas pernas etc.
Superada essa primeira problemática, o
autodidata se deparará mais um segundo obstáculo que, em
opinião particular, é o mais complexo de todos.
Como no Brasil o acesso à vídeos de orquestras
árabes é bastante difícil, muitos percussionistas autodidatas
estudam "ouvindo" apenas solos de derbakke em cds e fitas de
áudio. Como não há uma orientação mais precisa, o estudante
tenta reproduzir no instrumento aquilo que ouviu no cd sem se
preocupar com a técnica correta para a sua perfeita realização
( é importante ressaltar que, muitas vezes, o próprio enfeite
gravado no cd é uma mera simulação da técnica profissional).
O autodidata começa a criar simulações de
enfeites, execuções rítmicas, repiques etc, o que acaba
contaminando toda sua qualidade técnica. Nenhum enfeite ou
repique usado em um solo de tabla é feito por acaso. Há sempre
uma técnica que está em consonância com a sua dinâmica sonora.
Mas por que isso é importante ? Bem, eu posso passar dez,
vinte anos realizando- simulando- um determinado enfeite que
ouvi em uma música e, depois de todo esse tempo, ter de
aprender tudo novamente.
O importante termos em mente que nenhuma
simulação de enfeite soará bem e corretamente, por mais
parecida que possa ser ao enfeite produzido na técnica
correta.
O autoditada, portanto, deve estar atento a
todos esses pontos e buscar "todos" os meio possíveis para se
aperfeiçoar ( vídeos (antigos), workshops, consultas, cd's etc
) prestando atenção na dinâmica e nas nuanças empregadas.

Os encaixes rítmicos (Combinação rítmica) e o compasso na
percussão libanesa.
Os instrumentos da
música árabe clássica - Belíssima gravura de Edward
Arida ( Brasil, Ariphone - anos 60 - 70 ) |
M uitas
pessoas possuem dificuldades de compreender os rítmos árabes
devido sua eminente complexidade. Se observarmos
cuidadosamente cada ritmo, vamos observar que cada um possui
um verdadeiro leque de variantes. Devemos ter consciência que
além dessas variações, existe a possibilidade de se inserir no
ritmo determinada improvisação. Logicamente isso só deve ser
feito se o percussionista tiver boa familiarização com o ritmo
que está executando.
Outro dado de
extrema importância que não posso deixar de aludir, é o que se
refere ao que chamo de encaixe de ritmos, ou seja, quando se
executar um solo que possua vários ritmos, o percussionista
deve se preocupar com a continuidade ritmica, com o encaixe de
um ritmo no outro. Isso se faz geralmente através da tabla ou
derbakke.
Esses encaixes rítmicos são feitos geralmente através de uma
improvisação do próprio percussionista, e assim, o que antes
era um solo dividido em ritmos distintos, se torna um bela
melodia rítmica. Os encaixes rítmicos são denominados também
de combinações rítmicas.
Ao se executar um
solo, deve-se evitar permanecer em um único ritmo base por
muito tempo, principalmente se o solo está sendo executado
para apresentações de bailarinas. A variação ritmica
proporciona para quem dança a possibilidade de mostrar seus
conhecimentos e habilidades na arte. Essa pluralidade rítmica
deverá ser reduzida nos casos de apresentações de várias
bailarinas em apresentações coreografadas.
Deve-se evitar o
abuso dos repiques ou enfeites. Eles devem ser inseridos no
momento certo. O abuso nos repiques pode gerar certa confusão
rítmica para quem dança ou até mesmo para que acompanha em
outro instrumento de percussão. Devemos tocar sempre com o
sentimento.
Podemos assim enumerar os seguintes elementos que um
percussionista deve ter em mente:
a- Evitar a monotonia de um único ritmo ( duplicidade ou
pluralidade ritmica)
b- Estabelecer o encaixe rítmico
c- Evitar abusos nos enfeites ou repiques
d- Deixar fluir os sentimentos nos solos executados.
Compasso é a
medida de tempo em uma música e em casos de enfeites e paradas
deve se prestar atenção para não sair desse tempo.
Se um percussionista desejar realizar um solo sob ritmos
rápidos é só diminuir esse intervalo de tempo, agora caso
desejar ritmos lentos, aumente esse intervalo.
Assim , em considerações finais, é fundamental que cada
percussionista deixe potencializar seu estilo próprio. Alguns
são simples e agressivos, outro complexos. Descubra o seu
estilo.

O Taqsim Tabla (solo livre) e a Arte da Dança
do Ventre.

Bailarinos libaneses dançam o tradicional
Dabke - Foto dos anos 70. |
O que cabe a um Percussionista explanar sobre Dança do
Ventre ? Bem, essa é uma questão bastante complexapois
se de um lado ele não está apto a falar sobre questões
técnicas referentes a dança em si, do outro é detentor e
conhecedor do principal subsídio que dará à Bailarina
condições de se apresentar em um show, qual seja, o ritmo e
suas variações. Há, portanto, um lado negativo e positivo em
questão.
A importância do
conhecimento de um percussionista para a Dança do Ventre
remonta no Brasil desde tempos passados. Na década dos anos
70, antes do início dos ensinamentos de Shahrazad Sharkey, a
arte técnica da Dança do Ventre era totalmente desconhecida.
As vestimentas usadas na época eram improvisadas pelas própria
Bailarinas (a luxuosidade das vestimentas para as
apresentações de Dança do Ventre hoje utilizadas no Brasil,
seguem o estilo Shahrazad). Na época, Fuad Haidamus, que já
ostentava o título de maior derbakista do Brasil, fornecia
algumas "dicas" para as Bailarinas que iriam se apresentar,
tentando com seu conhecimento em percussão ajudar da melhor
maneira possível.
Mas quais dicas eram
essas ? Em que Haidamus se baseava para poder ajudar as
Bailarinas da época ? Bem, para chegarmos a uma resposta
viável, há necessidade de um raciocínio lógico e mais
minucioso.
Sabemos que Taqsim Tabla
é o ato de improvisar na Derbakke (Tabla) sem uma percussão
base ( falamos aqui do solo livre ). Não há regras para a
criação de um Taqsim Tabla, porém, há alguns subsídios
importantes dos quais o percussionista deve respeitar.
É certo que o conhecido
modelo usado no solo de Tabla clássico (apresentado por
Haidamus no Brasil) usando floreados sempre em números pares,
ou seja, duas repetições e um corte, ou quatro repetições e um
corte é um método reconhecidamente utilizado em larga escala
por músicos do mundo inteiro.
Muitas Bailarias
consideram um grande desafio dançar um Taqsim Tabla, uma vez
que técnica de dança e percepção rítmica se consubstanciam
intrinsecamente.
Há vários ensinamentos
que, na tentativa de amenizar ou, então, solucionar tal
problemática, analisam estruturas de solos, elencam os ritmos
mais usados etc.. . Digo que isso ajuda, mas, muito pouco. É
claro que não dá para se descobrir precisamente o que se passa
na mentalidade do Percussionista que está atuando no momento.
Fuad Haidamus, quando praticamente "reinventou" o Taqsim Tabla
no Brasil, apresentou uma arte que se resumia em dois
elementos principais: Raciocínio e técnica. No solo
improvisado de derbakke não existe reflexo ( Todo toque está
diretamente ligado a um raciocínio prévio do músico ). No
Brasil, a mesma técnica clássica usada por Haidamus na década
dos anos 70, é copiada por quase todos os músicos da
atualidade.
Pois bem, já devemos ter
notado que a grande maioria das Bailarias que dançam solos de
Taqsim Tabla, geralmente, se apresentam ao lado de um mesmo
músico percussionista ( fato que ocorre mundialmente ). Ora,
não é raro de se ver Percussionistas e Bailarinas de Dança do
Ventre casarem - se e trabalharem juntos. Por que isso ocorre
? Quando uma Bailarina dança uma improvisação de solo de
Tabla, ela precisa necessariamente "perceber" de forma ágil o
que o Percussionista vai apresentar - jogar - na seqüência de
seu solo improvisado. Se o reflexo é utilizado ou não na Dança
do Ventre, essa é uma resposta que foge totalmente de nossa
alçada.
( O
músico percussionista ao realizar um solo de Taqsim, trabalha
mente e técnica, ou seja, ele pensa e ao mesmo tempo age
(toca). Quando um percussionista erra uma seqüência, significa
que a sua técnica não está em sintonia com seu raciocínio ou,
então, vice-versa. É preciso, assim, "treinar" melhor essa
relação).
Improvisar na Derbakke
não é tocar quatro ou cinco tipos de ritmos em uma sequência
combinando-os. É "criar" enfeites e variações tendo como
subsídio esses ritmos.
Se uma Bailarina
apresenta-se várias vezes ao lado de um mesmo Percussionista,
ela consegue alargar essa percepção, uma vez que já conhece
"as manias" daquele específico músico, ou seja, a forma que
ele toca e quais floreados e enfeites gosta exageradamente de
usar ( daí a expressão "mania" utilizada ). O reconhecimento,
nesses casos, se torna bem mais fácil e, por conseqüência,
mais rápido.
As manias percussivas ou
rítmicas são, na verdade, os elementos pelos quais o músico
irá gerar sua fórmula particular - estilo particular - que,
evidentemente, será utilizada na criação de todos os seus
solos, sejam eles improvisados ou não.
Todos os enfeites por
mais diversificados que possam ser terão algo familiar, ou
seja, pertencerão a uma mesma fórmula, a uma única técnica e
estilo. É essa fórmula particular que a Bailarina precisa
conhecer e absorver.
Cada percussionista tem
um gosto exagerado por determinados enfeites e ritmos e , com
absoluta certeza, deixara fluir em todos os solos
improvisados. O ritmo mais preferido e usado como subsídio nos
solos de improvisação é, evidentemente, o Maqsoum e suas
demais ramificações rítmicas.
A Bailarina precisa
sempre ter em mente que apesar da improvisação na Tabla ser
infinitamente livre, todo percussionista tem um hábito, um
costume, um gosto exageradamente próprio (manias), e sempre,
sempre irá colocá-lo no topo central de sua improvisação.
É evidente que a
improvisação "infinitamente livre" deve ser realizada com um
certo cuidado, respeitando "sempre" o campo das variações
rítmicas exclusivamente árabes. Em opinião particular, é um
grande erro jogarmos um samba no meio de um solo de derbakke.
Condeno também misturar outros ritmos como a Salsa, o
Merengue, Ritmos Flamencos (muito na moda ) etc.. . O solo de
Taqsim Tabla deve ser mantido na sua tradicionalidade e
originalidade rítmica.
Aqui cabe ainda uma
outra importante questão. É certo que desde a sua primeira
apresentação ( Hammouda (Egito) e Haidamus (Brasil), o solo de
Tabla pouco evoluiu. Mas o que essa informação tem de
importante para uma Bailarina de Dança do Ventre ? Bem, se o
solo de tabla pouco evoluiu, significa que a grande maioria
dos percussionistas árabes possuem uma certa uniformidade
técnica, o que muito facilita os estudos tanto para
bailarinas ( percepção rítmica ), quanto para músicos
iniciantes, intermediários e avançados ( percepção e técnica
correta para executar tal ritmo ).
É importante dizer que
essa uniformidade técnica também pode ser compreendida ou
interpretada como a existência imperativa de fórmulas
parecidas. Geralmente, um músico pode ter fórmula parecida,
semelhante com a de outro na construção de seus solos, mas,
nunca essas fórmulas serão iguais, idênticas. A técnica de um
artista pode ser parecida com a de a outro, mas nunca igual (
Um escultor pode esculpir semelhantemente, mas nunca igual ao
grande Michelangelo )
Dessa maneira, uma Bailarina precisa
necessariamente conhecer e registrar as técnicas mais comuns
usadas pelos mais diversos mestres de tabla, e, munidas dessas
informações, tentar, em um primeiro momento, perceber as
manias do músico com quem vai se apresentar.
Não pergunte o que ele vai apresentar, mas,
sim, do que ele mais gosta de apresentar ( rítmos, variações,
tipos de floreados etc.. ). Fuad Haidamus dizia à Bailarina o
que ele mais gostava de tocar e nunca o que ele iria tocar,
pois, se assim fizesse, não haveria taqsim tabla, uma vez que
ocorreu uma quebra na liberdade da improvisação.
É evidente que, para tanto, alguns ensaios
deverão ser realizados obrigatoriamente. Lembremos ainda que
quanto mais registro de técnicas de percussão uma Bailarina
tiver, mais rápido e fácil será identificar fórmula usada
pelo músico, sempre, claro, pelo caminho mais curto, que é
através da percepção primária de seus gostos mais comuns.
gostos, hábitos > fórmula -
técnica - estilo > solo criado
Lembre-se:
Manias percussivas ou
rítmicas: Gosto exageradamente particular que cada
percussionista tem em relação a um conjunto de ritmos e
floreados técnicos ( É o que ele acha mais bonito ). Resultam
no conjunto de elementos pelos quais o músico criará seu
método particular - fórmula particular - pelo qual irá
desenvolver todos seus solos.
Fórmula, técnica e
estilo: Métodos usados pelo percussionista para criar seus
solos.
Uniformidade técnica e
estilo: Certa semelhança no jeito de se executar solos de
taksim Tabla.
fórmulas parecidas
(imperatividade): Devido ao pouco desenvolvimento da arte do
Tabla Solo, os métodos usados pelos músicos se tornaram
obrigatoriamente análogo.
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